A moda é ser babá

Essa matéria é meio grandinha... mas bem interessante.



Cuidar do filho dos outros, aprender inglês e ganhar um dinheirinho. Como são os programas de au pair, a modalidade de intercâmbio que mais cresce no Brasil

Patrícia Moura vive em Fischer, cidadezinha americana no estado de Indiana, e divide seu tempo entre as palavras e as crianças. Com as palavras, aproxima-se de seu país, dos pais, das amigas, de quem a espera há mais de um ano.

Com as crianças, cozinha, brinca, briga, vai e volta da escola, procura respostas para as lições de casa e as birras diárias. Patrícia tem 23 anos eresponsabilidades de mãe, mas nunca encarou uma gravidez. Não pensa em ter filhos tão cedo justamente por viver essa rotina. Está a poucos meses de retomar a vida de solteira em Carapicuíba, na Grande São Paulo, onde vive sua família brasileira. Patrícia é uma das 25 mil brasileiras que embarcam anualmente em programas de au pair - para estudar, cuidar de crianças e vivenciar outra cultura - nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália.

Trata-se do tipo de intercâmbio que mais cresce no país, de acordo com as operadoras - em algumas, alcançando 100% de aumento -, e também o mais barato. Comprando um pacote por 800 dólares, sendo de 300 a 500 dólares reembolsáveis no fim do programa, dá para ficar um ou dois anos morando em casa de família nos EUA - destino procurado por mais de 80% das brasileiras. Por esse preço, a au pair tem direito a receber dos pais da criança uma bolsa de estudos de até 500 dólares, salário semanal de até 176,85 dólares, transporte e alimentação. Entre os pré-requisitos estão: inglês intermediário, 200 horas de experiência com crianças, carteira de motorista e ensino médio.

"Quando eu tinha 19 anos, buscava um programa barato de intercâmbio que me proporcionasse boa acolhida em família e uma mesada 'básica'. Encontrei no au pair, que me abriu milhões de portas e me fez perceber minha vocação", diz Andrea Sebben, psicóloga especializada em psicologia intercultural que viveu durante quatro anos como au pair na Bélgica, na Itália e na Espanha.

A possibilidade de passar um tempo no exterior fazendo um curso de línguas ou em sua área de formação sem desembolsar quase nada é decisiva para muitas meninas que trocam informações sobre o programa em comunidades do Orkut - há mais de 350, sendo que a maior tem mais de 5 mil participantes. Mas vale a pena largar tudo para ser babá no exterior? "No começo foi difícil aceitar que minha filha ia deixar um trabalho bom, estável, para cuidar do filho dos outros. Mas ela sabe o que faz, é muito responsável, então nós a apoiamos", diz Antônio Domingos Valino, pai da paulistana Gisele Valino, de 26 anos, que atuava na área de relações internacionais e vive há dez meses em Vermont, área rural nos Estados Unidos.

"Na maioria das vezes as meninas chegam inseguras à operadora, sabem pouco sobre o programa. Então realizamos encontros com uma ex-au pair, que conta sua experiência, o que deixa as candidatas mais confi antes", diz Emília Miguel, gerente de produtos da operadora Experimento. Mas, por mais informação que se obtenha, na prática a vida em outra cultura, com uma família que não é a sua, fica bastante complicada.

A paulistana Kamila Marchi, de 20 anos, não cursou faculdade, preferiu aperfeiçoar o inglês, deixar São Paulo e embarcar para o Colorado, onde Nicolas, de 3 anos, e Katarine, de 6, a esperavam, não tão bem quanto ela imaginava. No início, as crianças a mandavam embora e, às vezes, até tentavam bater nela. Nos dois primeiros meses, os dias foram insuportáveis, regados a brigas e um "sentimento terrível de solidão", segundo Kamila, que quase desistiu, mas preferiu encarar o desafio e conquistar os pequenos. O segredo? "Comecei a ignorar os maus-tratos e a mostrar a eles que aquilo não me abalava. Acho que queriam me testar, ver qual seria minha reação. Depois que tomei essa atitude, as crianças passaram a me respeitar, obedecer e falar que me amavam", conta.

A rejeição inicial não é regra entre as crianças que recebem as futuras babás. Helena Maria da Silva, de 26 anos, embarcou no mesmo avião que Kamila, também para o Colorado, onde encontrou Isabela, de 4 anos, e Henry, de 2. "A viagem foi emocionante: meu primeiro voo internacional! Quando cheguei, as crianças vieram me abraçar, dar presentes, e a família toda foi muito carinhosa comigo", diz Helena. Sorte de principiante? Não.

Um dos aspectos mais importantes para quem deseja ser au pair é ter calma na hora de escolher, ou melhor, de ser escolhido. O banco de dados das operadoras é parecido com o dos sites de relacionamentos. As famílias interessadas têm acesso a informações sobre as candidatas, entram em contato com elas por e-mail e depois por telefone. As meninas também vêm o perfil da família e avaliam se satisfaz suas expectativas. E se o santo não bater? Melhor dispensar do que embarcar em uma roubada por pura pressa.

A inquieta Ana Claudia Silvia, carioca, não queria saber de esperar; já estava com quase 27 anos, idade máxima para fazer o intercâmbio. Inscreveu-se em um site gratuito com perfis de famílias e candidatas a au pairs, antes de procurar uma operadora. Fez contato com famílias dos Estados Unidos, trocou dezenas de e-mails e recebeu diversas ligações, até que encontrou o lar perfeito. "A família ficou apaixonada por mim. E estava disposta inclusive a entrar em uma agência americana que tivesse acordo com alguma agência brasileira. Pedi que fizessem isso. Afinal, eu não podia embarcar sem que alguém intermediasse: é muito arriscado, mesmo sabendo que a família era séria", conta. A história, porém, não teve final feliz. Ana Claudia inscreveu-se em uma operadora, preencheu toda a papelada e manteve contato com os americanos, que começaram a apressá-la, pois precisavam dela o mais rápido possível. A burocracia não respeitou o ritmo da brasileira nem a pressa dos gringos.

A família americana desistiu de Ana. A notícia veio em um e-mail em que eles avisaram que já haviam contratado outra pessoa. Apesar de decepcionada, Ana persistiu e inscreveu-se em outra operadora. Hoje está na Califórnia, cuidando de dois meninos, aperfeiçoando o inglês, aproveitando a praia e "praticando a calma".

Os destinos das au pairs são variados. Podem ir da concorrida Nova York à romântica Paris, passando pela Pensilvânia ou por uma cidadezinha no interior da Alemanha. Ficar em um lugar afastado dos grandes centros não significa necessariamente uma vida entediante. Quem diz isso é a paulistana Gisele Valino, que vive há dez meses em Vermont. "Estou morando numa região rural, que é muito bonita. A maior cidade próxima daqui é Burlington. É lá que encontro o pessoal, de dia, para aproveitar a praia que se forma na beira do Lago Champlain e, à noite, nos bares e pubs. Isso quando estou de folga", diz.

As sonhadas folgas, em geral, são distribuídas da seguinte forma: um dia e meio por semana, um fim de semana inteiro por mês e duas semanas de férias por ano. Esse é o padrão; porém, é preciso negociar os dias de descanso de acordo com os interesses da au pair e as necessidades da família. Algo nem sempre fácil. Simone Carine Itner, de 26 anos, ficou nos Estados Unidos até outubro de 2007, seu segundo ano de intercâmbio, e agora mata a saudade da terra natal, Timbó, a 30 quilômetros de Blumenau. Mas, enquanto viveu em território americano, aproveitou para viajar. Sempre que o orçamento permitia, viajava nos fins de semana de folga com as amigas que conheceu nos encontros de au pairs, organizados todos os meses por algumas operadoras. Uma dessas viagens foi para Nashville, com mais nove meninas. "Uma loucura! Eu cuidei de todos os detalhes: escolhi hotel, roteiro, aluguei um carro. Minha host family (como são chamadas as famílias que recebem a au pair) deu todo o apoio. Vivia me incentivando a conhecer novos lugares", diz a catarinense.

Também no segundo ano de intercâmbio, mas em Paris, Selma Oliveira de Almeida, de 26 anos, teve sorte e ganhou uma viagem da família que a contratou. "Desde o início eles me trataram muito bem, sempre me ajudando, principalmente com as dificuldades que eu tinha quanto à língua. No fim do primeiro ano me deram uma viagem para Londres com acompanhante. Foi maravilhoso!" A possibilidade de conhecer outras cidades e outros países torna o intercâmbio ainda mais interessante. Entretanto, de acordo com a psicóloga Andrea Sebben, para aproveitar o programa ao máximo, é preciso saber se portar, ser curioso, ter autonomia, coragem e, mais que tudo, se interessar pelas diferenças culturais e aprender a conviver com elas.

Carol Mella, de 22 anos, nasceu em um lar católico. Fez crisma e primeira comunhão. Quando embarcou para Park City, em Utah, nos EUA, levou na mala, além de casacos, um terço, lembrança da família que ficou em São Paulo. A comunidade em que Carol mora nos Estados Unidos é mórmon. Ela é uma das únicas au pairs da cidade que não seguem essa religião. É única também para Annie, de 7 anos, Zoe, de 6, e Micah, de 4. Por isso ficará mais um inverno debaixo de muita neve. Quanto à questão religiosa, a paulistana diz: "Nunca sofri preconceito e a cada dia aprendo a viver melhor com as diferenças". E mantém a sua fé.

Do outro lado do país, em Maryland, Aline O'Reilly, de 23 anos, sofreu com outro tipo de diferença: a gastronômica. Acostumada a comida bem temperada e com "sustância", a pernambucana diz que não se conformava com o cardápio junk food dos americanos. "Quase todo dia tinha alguma coisa frita ou, pior, congelada nas refeições", diz ela. Até que a brasileira virou o jogo, começou a fazer compras para a família e a incrementar a alimentação das crianças com produtos e pratos saudáveis. Afinal, o intercâmbio acrescenta tanto para quem embarca quanto para quem recebe. "Nos Estados Unidos, na Europa ou na Austrália, do ponto de vista econômico é muito vantajoso para as famílias contratar uma au pair, sem falar na troca cultural", diz a psicóloga Andrea Sebben.

No caso de Aline, o intercâmbio acrescentou mais do que ela poderia imaginar. Quando saiu do Recife, com 20 anos, rumo a Maryland, não sonhava em se casar, ter filhos, nada disso. Queria apenas aperfeiçoar seu inglês e cuidar bem das duas crianças que a esperavam. Mas, em seu primeiro Dia de Ação de Graças, depois de muita insistência, foi almoçar na casa de uma vizinha brasileira e conheceu o irlandês Owien, que também estava lá por obrigação. Eles, além de compartilhar certo desconforto, se apaixonaram e em pouco tempo começaram a namorar. Depois de oito meses, Aline decidiu trocar de família. Queria viver em Nova York; então foi para lá cuidar de outras três crianças. Apesar da distância, continuou seu romance com o irlandês naturalizado americano. Aline aguentou apenas dois meses com a nova família e logo deixou a casa em que morava para viver novamente em Maryland, dessa vez com Owien. Descobriu então que estava grávida, esperando Tomas.

Hoje Aline, Owien e Tomas vivem na Irlanda. Vieram ao Brasil pela primeira vez em setembro. A pernambucana Aline não pensa em contratar nenhuma au pair para ajudá-la. Por quê? "Quero que meu filho cresça ao redor da família. Nos Estados Unidos, os pais deixam de estar presentes, falam com os filhos apenas na hora em que estão dormindo. É só 'good night'. Eles esperam que a au pair seja pai e mãe das crianças", diz. "Mas, apesar disso, o programa foi um ótimo aprendizado para mim."


Por: Talita Ribeiro / Foto: Ilustração: Mauro Nakata
Fonte: Viaje Aqui

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